quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O dia do golpe

É um dia igual aos outros, mas por que dói tanto? ... É que, no dia do golpe, tudo parece igual aos outros dias, exceto pelo fato de que no dia do golpe dói a dor de todos os golpes cotidianos, dói de uma vez só todos os golpes, todas as injustiças que doem aos pouquinhos nos outros dias comuns que não são o dia do golpe.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O véu ocidental

* Basta clicar nas imagens para ampliá-las.


Minha intenção aqui é chamar atenção à fala que eu destaquei em amarelo, Este trecho, em especial, me chamou atenção porque nos convida a olharmos "nossos próprios umbigos" antes de julgar os outros. Comumente a mulher ocidental tem a ideia de que "as orientais são todas umas coitadinhas, precisam ser livres como nós" e o véu figura como a símbolo mor desse pensamento.

Assim, vamos falar de nossas "escolhas e comportamento livres".

Tenho amigas que travam verdadeiras guerras com os próprios cabelos porque cresceram com a ideia de que o "cabelo bom" era outro tipo de cabelo diferente do dela, e se submetem a processos químicos violentos para tentar alcançar aquele "cabelo melhor" que tanto a fizeram acreditar que deveriam ter — infelizmente esta história é de bem mais do que uma amiga, é de várias. Não adianta dizer que elas não precisam fazer aquilo se não quiserem, o processo de criação dessa ideia foi feito de forma continuada durante muito tempo, de modo que já tomou proporções psicológicas muito profundas, e, em algumas mais outra menos, as fazem sofrer. Tem moças que eu conheço que se forem vistas sem maquiagem simplesmente se desesperam, que torram cada centavo que têm com roupa, maquiagem, cabelo, unhas... Há uma grande indústria que planta inseguranças psicológicas nas mentes dessas mulheres e depois prometem "resolver seus problemas" com produtos.

De uns tempo para cá surgiram movimentos na internet que pregam o fim da chamada "ditadura do cabelo liso", por "cabelos livres", assim incentivam as moças a aceitarem seus cabelo naturais crespos, ondulados, cacheados ao invés de submetê-los a processos de alisamentos químicos ou físicos que são degradantes. Até aí ótimo, inciativa louvável. No entanto, a indústria não iria deixar de se aproveitar desse movimento. E não deixou mesmo, hoje vejo, inclusive nesses grupos, propagandas de produtos voltados para cabelos cacheados que custam uma fortuna — quase R$100 um potinho de creme com 400g, e as meninas torram fortunas com esses produtos para garantirem "cachos bonitos". Daí me respondam: vocês querem seus cabelos livres de que mesmo? Porque trocar uma indústria exploradora por outra indústria exploradora não me parece muito condizente com um conceito de ser "livre".

Esses fatos me angustiam, pois me parece que o "véu" das ocidentais — que pensam que são livres  é a modelo da capa da revista, da propaganda de xampu, de batom, de perfume, de lingerie...

"Mas todo aquele esforço para 
parecerem atraentes... 
em suma, não me transmitia 
uma ideia de liberdade".

Não estou dizendo que é, por si só, estigma de opressão social o uso de maquiagem, pintar e/ou alisar o cabelo, claro que não é — nem mesmo o véu, por si só, o é —, o que quero trazer à reflexão nesse post é que tem bem menos vontade e escolha livre em muitas das nossas "escolhas" do que acreditamos e precisamos falar mais sobre isto.

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• Referência: BERTOTTI, Ugo. O Mundo de Aisha: A revolução silenciosa das mulheres do Iêmen. São Paulo: Nemo, 2015. Fotografias: Agnes Montanari; Tradução: Fernando Scheibe.

sábado, 21 de maio de 2016

NÃO É SÓ UMA QUESTÃO DE OPINIÃO.

Opinião é quando alguém prefere uma cor na parede da sala ao invés de outra. Opinião é quando se acha mais bonito estampa florida do que listrada. Opinião é quando alguém prefere o próprio cabelo curto ao invés de comprimido. Opinião é quando alguém escolhe ter ou não ter religião, ouvir ou não ouvir determinado gênero musical, tomar café ou chá, ou água... Tudo que alguém faz do próprio espaço, sem intervir no espaço do outro é seu direito é sua liberdade, configura sua opinião. Posicionamentos que defendem a restrição dos direitos dos outros não é "só opinião", política se discute sim, porque não é do simples âmbito da opinião. Discurso de ódio, segregação e violência não é mera opinião. Opiniões diferentes da minha não fazem de ninguém meu inimigo, posicionamentos políticos que atacam, restringem e violam os direitos dos outros fazem sim desses indivíduos meus inimigos, eu não quero ser amiga de homofóbicos, misóginos, racistas, fascistas.

Eu não quero amizade de nenhuma pessoa que se posiciona para tirar das outras pessoas o direito de casarem, de formarem família, de amarem quem quiserem, de terem o nome social que se identificam, de serem quem realmente são. Não quero ser amiga de quem prega por aí que o jeito "certo", "bonito" e "melhor" que toda mulher deve parecer, que todo homem deve parecer, que todo ser humano deve parecer é jeito da classe racista, elitista com complexo de vira-latas.

Portanto, antes de vir me acusar de ser "intolerante" com quem tem "opinião" diferente da minha, seria interessante repensar o que realmente se entende por "opinião".

Imagem: LAMP CITY BITCH by Happy As Flynn.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Carta na manga: os estúpidos

Você* que pensou que esse golpe orquestrado pela mídia, investigados no legislativo, traídores/investigados/condenado no executivo e vista grossa do STF era sobre combater corrupção provavelmente percebe agora que sua ingenuidade foi usada contra você. Os golpistas pretendem acabar com o acesso universal à saúde pública, samu, farmácia popular, com piso nacional para professores, prouni, fies, minha casa minha vida, já acabou com a Controladoria Geral da União (um órgão, antes, independente e fundamental à fiscalização de corruptos), ministérios fundamentais à promoção da democracia, nomeou ministros corruptores para fazer toda essa desgraça e, o pior é que há apoiadores do golpe que outrora diziam que queriam mesmo era o fim da corrupção, mais educação e saúde simplesmente fingem não ver a desgraça toda que apoiaram.

Curiosamente... as pessoas mais bem instruídas, críticas, inteligentes, estudiosas, profundas que eu conheço e convivo, pessoas que consomem boa música, literatura, cinema, arte de modo geral são enfaticamente contrárias a este golpe. Por outro lado as mais ingênuas, ignorantes, preconceituosas, razas, que nunca pisaram numa exposição de arte na vida, que nunca leram um livro de literatura de verdade (mesmo tendo condição financeira para fazer tudo isso), que consomem somente o entretenimento massificado enfadonho feito para não desafiar a falta de criticidade do seu público alvo foi o tipo de público que apoiou o golpe. Disso recorto que o maior trunfo dos golpistas "poderosos" foi a estupidez dos que lhes apoiaram.

Imagem: Ignorance by DP ARТ.
* 'Você' é só um recurso retórico.

sábado, 30 de abril de 2016

De onde eu quiser, do jeito que eu gostar... Bela?

Agora que passou, acredito que se faz cabível falar sobre algumas percepções advindas da campanha "bela, recatada e do lar". Retomando a questão, há algumas semanas a revista Veja publicou uma matéria que elogiava e inaltecia como "modelo perfeito de mulher" a mulher que seguia a linha "bela, recatada e do lar" — bem ao estilo "mais de cinquenta anos atrás. O modelo representante desse ideal era a mulher do atual vice-presidente golpista. Este fato gerou uma onda de indignação por parte de mulheres que, com toda razão, se insurgiram contra essa esteriotipação retrógrada que dita como toda mulher tem que ser para ser boa. Claro que quem queira pode ser "bela, recatada e do lar", o problema é pregar que todas tem que ser e quem é assim seria, portanto, melhor do que quem não é.

É evidente que eu participei na campanha contra essa ditadura retrógrada de "mulher ideal", de modo que acompanhei os posts das demais pessoas acerca da campanha — principalmente pelo Instagram. Entre as descontruções da tríade "bela, recatada e do lar" eu vi "bela, desbocada e do bar", "bela divertida e do trabalho", "bela, como eu quiser, de onde eu quiser".... O único ponto que o questionamento não foi, na maioria dos casos, aprofundado foi quanto ao ponto "bela". A rejeição à obrigação social quanto aos pontos "recatada" e "do lar" foi intensa, mas ninguém — ou quase ninguém — questionou, procurou desconstruir o quesito "bela". 

Talvez a(o) leitora(o) deste texto se questione "mas quem é que vai querer ser feio?", ninguém decerto, mas o problema aqui apresentado é a objetivação do que é "ser bonita" — objetivação, aliás, quase sempre ditada por quem corresponde ao modelo que se dita como o melhor, como correto e tem poder de disseminar sua ideia de "verdade" como se esta fosse a verdade — já ouviram dizer que "uma mentira repetida muitas vezes toma ares de verdade"? A questão é que há um padrão do que é "ser bela" defendido ali naquele discurso daquela revista, que corresponde a ser magra, branca, cabelo lisinho, arrumadinho, de preferência loiro, maquiagem suave, nariz arrebitadinho, traços considerados "delicados", um padrão racista e eurocêntrico que, no fundo, afirma que quem não se encaixa nesses moldes não responde ao quesito "ser bela", é "feia".

Eu lembro que nos anos 90, quando eu era uma criança, o slogan da Barbie era "Barbie, tudo que você quer ser" — dá para pensar num slogan mais cretino? Um comercial de boneca me ditava que "tudo o que eu quero ser" é uma moça loira, cabelos lisos, olhos azuis, alta, magérrima, peituda, e toda coberta de coisas em cor-de-rosa. Hoje o slogan do comercial desta boneca deu uma melhorada nesse sentido e diz "seja o que você quiser" — tanto que, recentemente, a marca lançou versões da boneca nos mais diversos biotipos que, embora eu ainda não tenha visto nenhuma dessas "novas Barbies" à venda em lojas de brinquedos na cidade onde eu moro (Recife-PE), acredito que represente um instrumento importante à desconstrução deste modelo de beleza racista e eurocêntrico do qual está se falando aqui.

Assim, eu só quero dizer a final que além de "de onde eu quiser" (ao invés de necessariamente "do lar"), "do jeito que eu quiser" (ao invés de obrigatoriamente "recatada"), eu também sou "como eu quiser" (ou invés deste "bela" em moldes racistas, eurocêntricos da revista Veja).

Por Jacilene S, <br.pinterest.com/jacilenesil>


Sugestão de livro:
O Mito da Beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres.
Autora: Naomi Wolf
Editora: Rocco
Ano: 1992
Tradução: Waldéa Barcellos.

Download aqui: Epub 

domingo, 17 de abril de 2016

Como os nossos pais...

É simplesmente estarrecedor perceber a frágil democracia brasileira reduzida a pessoas acompanhando o que claramente são "eleições indiretas" para um golpe de estado em telões e comemorando os votos em "clima de copa do mundo", como se fossem gols. Mas espero que agora, ao menos assim, os que não sabiam "o que faz um deputado" tenham aprendido e procurem votar melhor da próxima vez, a começar por eliminar qualquer um que use religião para comover as pessoas para lhe darem votos.

O mais estarrecedor é perceber como é está longe para nós viver num país realmente democrático, que nunca o fomos plenamente e que a luta para o sermos é longa e difícil, ainda mais com uma população esmagadoramente analfabeta política e funcional, incluvise dos que estão nas faculdades e universidades matriculados, que não faz ideia dos pilares básicos da Constitução, muitas vezes nunca nem viu nossa Constituição. É estarrecedor constatar que de fato, e infelizmente, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais...